Especificidade ou treino geral? O que a ciência realmente diz sobre velocidade no treinamento de força
Essa frase se popularizou no esporte, mas quando levada ao extremo, ela gera erros graves de planejamento.
O artigo clássico de Behm & Sale (1993), publicado no Sports Medicine, discute um dos temas mais mal interpretados do treinamento esportivo: a especificidade de velocidade no treinamento de força.
O princípio da especificidade existe — mas não sozinho
O princípio da especificidade afirma que o corpo se adapta de acordo com:
-
Velocidade do movimento
-
Tipo de contração
-
Grupo muscular envolvido
-
Padrão neural
No entanto, Behm & Sale deixam claro que isso não elimina a importância do treino geral.
Treinar apenas em alta velocidade não constrói força suficiente para sustentar a performance.
Força lenta também transfere para movimentos rápidos
Um dos principais achados do artigo é que:
-
Treinos realizados em baixas velocidades, com cargas altas,
-
Produzem ganhos de força que transferem para ações rápidas
Isso acontece porque:
-
Aumento da força máxima eleva o potencial de potência
-
Melhor recrutamento de unidades motoras
-
Maior capacidade de produção de força em todo o espectro de velocidade
Conclusão prática:
A velocidade do movimento esportivo depende do nível de força desenvolvido fora dele.
O erro do “100% específico”
Na prática, muitos programas de treino:
-
Abandonam exercícios gerais
-
Evitam cargas altas
-
Utilizam apenas gestos esportivos ou similares
-
Confundem coordenação com força
O artigo mostra que esse caminho:
-
Limita o desenvolvimento físico
-
Reduz o teto de performance
-
Aumenta o risco de sobrecarga repetitiva
Treinar apenas o gesto não fortalece a estrutura.
Generalidade bem feita potencializa a especificidade
Behm & Sale defendem que o treinamento deve combinar:
-
Exercícios gerais (força máxima)
-
Exercícios específicos (velocidade, potência, gesto esportivo)
A generalidade:
-
Constrói base
-
Protege contra lesões
-
Sustenta a especificidade
A especificidade:
-
Refina
-
Direciona
-
Converte força em performance
Como aplicar isso no planejamento do treino
Uma abordagem eficiente envolve:
1. Base de força geral
-
Exercícios multiarticulares
-
Cargas elevadas
-
Controle técnico
-
Progressão planejada
2. Transição para velocidade
-
Intenção explosiva
-
Exercícios balísticos
-
Pliometria direcionada
3. Especificidade esportiva
-
Gestos do esporte
-
Velocidade real de jogo
-
Contexto competitivo
Especificidade sem força é ilusão
O artigo de Behm & Sale deixa uma mensagem que segue atual mesmo décadas depois:
Não existe treino específico eficiente sem uma base geral sólida.
A musculação tradicional, quando bem planejada, não “engessa” o atleta.
Ela liberta o movimento, aumentando o potencial físico para executar o esporte com mais eficiência, segurança e potência.
Referência
Behm, D. G., & Sale, D. G. (1993). Velocity specificity of resistance training. Sports Medicine, 15(6), 374–388.

Comentários
Postar um comentário